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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Viva o centro internacional de turismo e lazer


By Farah Master

MACAU (Reuters) - A short walk from billionaire Stanley Ho's extravagant Grand Lisboa casino stands the faded pink exterior of the Conde S. Januário, Macau's only public hospital.
Inside, bathroom tiles are stained and paint peels off the walls along the corridors where patients queue to be examined by busy medical staff. The hospital, built in the 1980s, serves the former Portuguese colony's more than half a million residents.
A new hospital is planned, but won't open until 2019. By then, Macau is expected to have added another six glitzy casinos to the three dozen that already make it the world's betting capital, as Las Vegas mogul Steve Wynn and others continue to bet on the only place where Chinese can legally gamble.
Life in Macau, a southern Chinese enclave one third of the size of Manhattan, is geared to gambling, which brings in revenue of more than $33 billion and accounts for more than 40 percent of GDP. There are more than four times as many gambling tables per 1,000 residents than hospital beds.
To many who live in what is both the world's most densely populated territory and fastest growing economy, the priorities are all wrong.
"It's unacceptable. These facilities are a joke. This is the main hospital in Macau," said Simon, who has lived in Macau for five years and works in the hotel industry, as he wheeled his toddler up and down in a narrow car park waiting for his wife.
Macau last year attracted 28 million visitors - more than the population of Australia - and while the gambling industry has boosted general living standards over the past decade, residents say the development of social infrastructure, including healthcare and transport, has lagged behind.
CLOGGED ARTERIES
A fleet of nearly 2,400 brightly colored casino buses shuttles visitors who commute en masse, stretching Macau's overburdened transport network, causing gridlocked streets and an increase in traffic accidents. This month, one Macau legislator pressed for a limit on the number of shuttle buses. A driverless light rail transit network is in the works, but isn't expected to be up and running until at least 2015.
Property prices have risen by half since last year, industry data show, and surging food prices mean daily groceries for Macau locals cost close to double what people pay in Hong Kong, the international financial hub an hour's ferry-ride away.
"I do see the inequality and the property price increases. Most importantly, I see the inequality gap is widening more and more compared to two years ago," said Larry So, a Macau-based political analyst.
Thousands of Macau residents have taken to the streets this month to call for more welfare measures, more public housing and more action to check inflation. Macau does also have a private hospital, a university hospital and several health clinics.
In comparison, greater Las Vegas, Macau's main rival as a gambling hub, has roughly the same population, more than 150 casinos and at least 15 hospitals with at least 90 beds or more.
HAND-OUTS NOT ENOUGH
Macau's government routinely gives residents annual "wealth share" cash handouts, raising this year's allowance to 7,000 patacas ($877), to try to stem public discontent. Last week, the government approved measures to tackle the overheated property market, but industry watchers say it is unlikely to bring down prices to affordable levels.
Juliet Risdon, director at JML Property in Macau, said that despite new housing supply such as the 19,000 subsidized home-ownership and social housing units due to be ready by the end of the year, overall new property supply was relatively short.
"I think it's very disappointing as a long-term resident of Macau, for my friends and colleagues here, that they are continually in a position where they cannot buy property," she said, adding that potential residents were frustrated about the small size of the new units and the exorbitant one-off cost of a car park berth, which has hit 1 million patacas (around $125,000) near one of the new low-cost housing developments.
The quality of housing is also under scrutiny, with some 200 residents evacuated from their apartment in the north of Macau's peninsula earlier this month after cracks appeared on the walls of the 30-storey structure.
HOOKED ON GAMBLING
Macau's transition from tranquil fishing village to casino boomtown has seen dependence on the gambling industry grow despite the government's efforts at diversification, said Jose Pereira Coutinho, a Portuguese legislator in Macau who heads the Civil Servants Association.
"There is no diversification of industry. We are too much dependable on gambling, so if something happens in mainland China, something bad, like SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) and people stop coming over to Macau, then the economy is in a mess," he said.
Small and mid-sized businesses struggle to survive, with many forced into bankruptcy in recent years, while others grapple with rising rents and skill shortages as graduates head straight to the casino industry where salaries are more than double.
Bobo Chan, a 26-year-old Macau university graduate, stopped working in the Sands Macau casino last year after she felt unable to cope with the lengthy overnight shifts in VIP rooms and the smoke-filled environment.
Chan, who now works for the Civil Servants Association, said that while she was able to switch industry, both her parents still work at the Sands Macau casino, with her mother on shifts from 8 p.m. until 4 a.m. most nights. While new casinos create opportunities for young people, Chan said the government is too focused on using gambling revenues to benefit Macau.
"There are already so many casinos in Macau. I think they had better put the money in education. I remember many years ago people came to relax, but now so many mainlanders come to Macau just to gamble," she said.
The social implications are taking their toll on residents, too, with local media reporting a 30 percent increase in the number of those seeking treatment for mental health problems in the past few years.
Some hope a change of leadership in China will help shift the political agenda in Macau.
"Let's hope when Xi Jinping becomes president something changes here in Macau. I don't know ... I hope so," said Coutinho, referring to the man widely touted as China's next leader.
(Additional reporting by Yimou Lee; Editing by Ian Geoghegan)

Um retrato bem verdadeiro de Macau

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

As espadas


O Governo estragou tudo. Tudo. Estragou a estabilidade política, a paz social, estragou aquilo que entre a revolta e o pasmo agregava o país: o sentido de que tínhamos de sair disto juntos. Sairemos disto separados? Hoje não é dia de escrever com penas, é dia de escrever de soqueira.
O Governo estragou tudo. Tudo. Estragou a estabilidade política, a paz social, estragou aquilo que entre a revolta e o pasmo agregava o país: o sentido de que tínhamos de sair disto juntos. Sairemos disto separados? Hoje não é dia de escrever com penas, é dia de escrever de soqueira. 

Passos Coelho, Gaspar e Borges estiveram fechados em salas tempo de mais. Esqueceram-se que cá fora há pessoas. Pessoas de verdade, de carne, osso, pessoas com dúvidas, dívidas, família, pessoas com expectativas, esperanças, pessoas com futuro, pessoas com decência. Pessoas que cumpriram. Este Governo prometeu falar sempre verdade. Mas para falar verdade é preciso conhecer a verdade. A verdade destas pessoas. Quando o primeiro-ministro pedir agora para irmos à luta, quem correrá às trincheiras?

Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?

O Governo falhou as previsões, afinal a economia não vai contrair 4% em dois anos, mas 6% em três anos. O Governo fracassou no objectivo de redução do défice orçamental. Felizmente, ganhámos um ano. Mas não é uma ajuda da troika a Portugal, é uma ajuda da troika à própria troika, co-responsável por este falhanço. Uma ajuda da troika seria outra coisa: seria baixar a taxa de juro cobrada a Portugal. Se neste momento países como a Alemanha se financiam a taxas próximas de 0%, por que razão nos cobram quase 4%?

Mais um ano para reduzir o défice é também mais um ano de austeridade. E sem mais dinheiro, o que supõe que regressaremos aos mercados em 2013, o que será facilitado pela intervenção do BCE. Mas "regressar aos mercados" não é um objectivo político nem uma forma de mobilizar um país. São os fins, não os meios, que nos movem. 

Sucede que até este objectivo o Governo pode ter estragado. Só Pedro Passos Coelho parece não ter percebido que, enquanto entoava a Nini, uma crise política eclodia. A nossa imagem externa junto dos mercados, que é uma justa obstinação deste Governo, está assente em três ou quatro estacas - e duas delas são a estabilidade política e a paz social. Sem elas, até os juros sobem. E também aqui o Governo estragou tudo. Tudo.

Os acordos entre partidos da coligação e o PS, e entre o Governo e a UGT, têm uma valor inestimável. Que o diga Espanha, que os não tem. Mas não só está anunciado um aumento brutal de impostos e de corte de salários públicos e pensões, como se inventou esta aberração a destempo da alteração da taxa social única, que promove uma transferência maciça de riqueza dos trabalhadores para as empresas. Sem precedentes. Nem apoiantes.

Isto não é só mais do mesmo, isto é mal do mesmo. O dinheiro que os portugueses vão perder em 2013 dá para pintar o céu de cinzento. O IRS vai aumentar para toda a gente, através de uma capciosa redução dos escalões e do novo tecto às deduções fiscais; os proprietários pagarão mais IMI pelos imóveis reavaliados, os pensionistas são esmifrados, os funcionários públicos são execrados. É em cima de tudo isto que surge o aumento da TSU para os trabalhadores. 

Alternativas? Havia. Ter começado a reduzir as "gorduras" que o Governo anunciou ontem que vai começar a estudar para cortar em 2014 (!). Mesmo uma repetição do imposto extraordinário de IRS que levasse meio subsídio de Natal, tirando menos dinheiro aos trabalhadores e gerando mais receita ao Estado, seria mais aceitável. O aumento da TSU é uma provocação. É ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras. 

Poucos políticos têm posto os interesses do país à frente dos seus. Desde 2008 que tem sido uma demência.Teixeira dos Santos aumentou então os funcionários públicos para ganhar as eleições em 2009. Cavaco Silva devia ter obrigado a um Governo de coligação depois dessas eleições. José Sócrates jamais deveria ter negociado o PEC IV sem incluir o PSD. O PSD não devia ter tombado o Governo. E assim se sucedem os erros em que sacrificam o país para não perderem a face, as eleições ou a briga de ocasião. O que vai agora o PS fazer? E Paulo Portas? E o Presidente da República, vai continuar a furtar-se ao papel para que foi eleito? 

João Proença foi das poucas pessoas que pôs o interesse do país à frente do seu, quando fez a UGT assinar um acordo para a legislação laboral que, obviamente, lhe custaria a concórdia entre os sindicalistas. Até Proença foi agora traído. Com o erro brutal da TSU, de que até meio PSD e o Banco de Portugal discordam. Sim: erro brutal. 

É pouco importante que Passos Coelho não tenha percebido que começou a cair na sexta-feira. É impensável que lance o país numa crise política. É imperdoável que não perceba que matou a esperança a milhares de pessoas. Ontem foi o dia em que muitos portugueses começaram a tomar decisões definitivas para as suas vidas, seja emigrar, vender o que têm, partir para outra. Ou o pior de tudo: desistir. 

Foi isto que o Governo estragou. Estragou a crença de que esta austeridade era medonha e ruinosa, mas servia um propósito gregário de que resultaria uma possibilidade pessoal. Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política. 

Esta guerra não é para perder. Assim ela será perdida. Não há mais sangue para derramar. E onde havia soldados já só estão as espadas. "

Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Estranhos tempos estes


"Milhões de cidadãos na Europa e nos Estados Unidos estão a ser levados a tomar posições que favorecem objectivamente os mercados financeiros e, em particular, os agentes mais gananciosos da especulação, que em lugar de serem punidos pelos graves erros que cometeram estão a ser beneficiados, em prejuízo do cidadão trabalhador e contribuinte. Em especial, alguma esquerda, a área política que sempre defendeu o trabalho honesto como modo de vida e a solidariedade do estado para quem realmente precisa, está a contribuir para o contrário do que apregoa.
A influente revista The Economist, publicação com sede em Londres, crítica declarada do projecto do Euro desde o seu início, volta esta semana à carga contra a senhora Merkel, com uma capa muito sugestiva. Um desenho de um navio de mercadorias com o nome de Economia Mundial afunda-se em pleno oceano enquanto alguém grita da torre de comando – Podemos ligar agora os motores, senhora Merkel?
No artigo que resume o tema de capa, o articulista que nunca assina é muito claro – apenas a chanceler alemã tem a chave para recuperar a economia mundial e não está a querer usá-la.
A tese é a mesma de sempre – Berlim tem de mudar o foco da austeridade para o crescimento económico. A mesma conversa da Administração Americana e de todos os investidores, jornalistas e analistas que, do outro lado do Atlântico ou do Canal da Mancha criticam a Europa do Euro. Os mesmos que nunca viram a crise do sub-prime a aproximar-se e a financeirização da economia ocidental a dar cabo dessa mesma economia, a empurrar as empresas industriais para outras zonas do globo e a deixar um rasto de dívida insustentável em todos os recantos da nossa civilização.
Sejamos claros.
Defender mais gastos orçamentais para estimular a economia é defender a aposta na continuidade de uma procura interna baseada em dinheiro que o países não têm, que a economia não gera, que tem pouca ou nenhuma utilidade económica porque não é investimento orientado para uma procura espontânea mas sim induzida, logo insustentável e que, em rigor, vai aumentar ainda mais a dívida externa. Vai aumentar ainda mais o risco da banca, do Estado, das empresas em geral. Vai aumentar as taxas, e o montante absoluto de juros efectivamente pagos a quem nos empresta o dinheiro.
Esta formulação é válida para Portugal, para Espanha, para tália, para a França, para A Bélgica, para a Holanda – sim para a aparentemente rica Holanda, também altamente endividada – para o reino Unido e para os Estados Unidos.
O que Angela Merkel está a querer fazer, em larga escala, é cortar a dependência viciosa e fatal das economias em que vivemos em relação aos grandes bancos que nos intoxicaram de crédito. (Sim, os banqueiros fizeram o que os políticos lhes permitiram, ou lhes pediram, e por isso foram recompensados. Aliás, a recompensa surge muito frequentemente sob a forma de cargos nos governos, na banca internacional, nos governos outra vez, na banca… etc. Neste dossier, o expoente máximo é mesmo Washington).
O que Angela Merkel quer fazer é proteger o chefe de família trabalhador, cumpridor, pagador de impostos, sóbrio solidário e pouco endividado – o mesmo que as esquerdas juram defender.
Como escrevemos no artigo anterior (A Tragédia a acontecer e quase ninguém a ver…de novo), os mesmos financeiros que agora se guiam por algoritmos para continuar a ganhar com a queda dos devedores, depois de terem ganho biliões com a sua subida vertiginosa e alavancada, os mesmos que pulavam de conferência em conferência para denegrir o papel do Estado e exigir a sua saída da economia, são os mesmos que chamam o estado para resolver os problemas dos seus bancos quando a concessão irresponsável de crédito corre mal.
A reacção em forte alta dos mercados financeiros, esta segunda-feira de manhã na primeira sessão após o resgate público anunciado no Sábado aos bancos espanhóis é bem a prova desta hipocrisia.  Num ápice, um problema de 100 mil milhões de euros que estava nos balanços dos bancos espanhóis passou para os bolsos dos contribuintes de Espanha. E passará para os bolsos dos alemães se o país vizinho não puder pagar, situação que não é improvável. Mas os mercados financeiros aplaudiram – têm o problema dos senhor que neles mandam – os sacrossantos accionistas – resolvido.
Mas como dissemos, o problema apenas transitou de uns protagonistas para outros, mantém-se em Espanha e em, última instância, na Zona Euro. E por isso, os juros da dívida pública espanhola, que inicialmente desceram levados pela mesma euforia, já estão de novo a subir.
Parar com a alavancagem insustentável dos Estados, da banca, das empresas e das famílias é o objectivo de Berlim. Devia ser o objectivo de todos nós. Devíamos deixar de ser reféns de um sector que têm um objectivo nobre – disponibilizar às empresas dinheiro para desenvolverem negócios sustentáveis, que foi poupado por quem não sabe aplicá-lo em larga escala noutras actividades – mas que perdeu esse objectivo de vista e se transformou em financiador de ineficiências públicas e privadas para seu próprio benefício.
Continuar com programas de estímulo orçamental com recurso a crédito para financiar actividades que não têm procura natural nem são sustentáveis; deixar de fazer a mudança estrutural da economia de serviços de ficção em que nos transformámos; impedir que nos viremos para a indústria, para a produção de bens concretos mas que dão menos lucro a curto prazo; isso sim, é continuar o desastre económico em que temos vivido.
Mas é o que quer Wall Street e a City: que os contribuintes europeus paguem os desmandos dos bancos em risco; que os contribuintes europeus paguem as dívidas dos países que por culpa própria se endividaram; e que os governos europeus dos países que ainda não se endividaram perigosamente, como a Alemanha, gastem mais e se endividem ainda mais.
Assim se manteria o nível de rendimentos da City e de Wall Street. E assim se evitaria que a armadilha sobre a qual os maiores bancos de investimento do mundo estão sentados, o mercado OTC – Over the counter – ou mercado não regulamentado de derivados, fosse desactivada. Pois essa armadilha vai ter de ser desactivada. É um brinquedo demasiado caro e perigoso para o Mundo.
E aqui está como uma inocente defesa de mais investimento pelos Governos para evitar o agravamento da crise e dos despedimentos, uma simples crítica à austeridade e aos seus efeitos, se está a transformar na mais forte estratégia de defesa dos especuladores dos mercados financeiros.
Para quem pensa que não há esperança na austeridade, leia bem o boletim desta segunda-feira do Instituto Nacional de Estatística sobre o Comércio Internacional de Portugal:
Nos primeiros quatro meses do ano, a taxa de cobertura das importações pelas exportações já vai em 81,8 por cento! Há quantas décadas não acontecia isto?
E se retirarmos os combustíveis e lubrificantes da conta – a dependência do petróleo, o saldo da balança comercial já é positivo em 150 milhões de euros só nestes meses!
De facto, o que estava a matar a nossa economia não era só o défice público – eram também os centros comerciais!
É para acabar com esta notável mudança da nossa economia que os críticos da Austeridade lutam? É para continuar com a irresponsável aplicação de dinheiro e favorecimento injustificado de quem o empresta?
Estranhos tempos estes em que vivemos… em que a líder de um país que trabalhou e poupou enquanto todos os outros gastavam e se divertiam é acusada de estar a afundar a economia mundial!
Estranhos tempos estes em que Angela Merkel age seguindo os princípios da esquerda para defender os interesses das populações e é apontada como fascista, enquanto as esquerdas acabam por defender os ilegítimos interesses do neo-liberalismo que comanda a alta finança e criou a sociedade mais desigual de que há memória, concentrando a riqueza em um por cento e deixando as dívidas nas mãos de 99 por cento dos cidadãos!"
José Gomes Ferreira, editor de economia da SIC

terça-feira, 12 de junho de 2012

Toda a gente mente

"O descalabro da banca espanhola é uma vergonha de regime. Pela construção de um mito. Pela cumplicidade público-privada num delito. Pelos lucros passados de uns na inexacta proporção dos prejuízos futuros de outros. Pela negação. Pelo contágio. Pela mentira. Toda a gente mente. Toda a gente mente à mesma gente: ao contrib... ao povo. 

Hoje temos o direito de falar do que se passa na casa dos outros. Porque a casa dos outros está hipotecada e nós pagaremos a serventia. Nós, os "europeus". Qual é a diferença entre a Grécia ter mentido nas contas públicas e bancos espanhóis terem mentido nos balanços? 

O problema espanhol é mais parecido com o irlandês, porque é bancário, do que com o português, que dos dez possíveis problemas não tem nenhum gigante mas tem todos ao mesmo tempo. Em Espanha, o mal nasce numa relação conjugal não vigiada entre "cajas de ahorro" e poderes políticos regionais, a par de uma bolha imobiliária de que todos participaram - e lucraram: bancos no crédito, construtoras no negócio, imobiliárias na colocação, Estado nos impostos, partidos sabe-se lá no quê, Governo nas estatísticas do PIB. 

Há pelo menos dois anos que a bolha imobiliária e os seus efeitos eram visíveis. Mas Espanha fez tudo mal entretanto, com o anterior Governo, de Zapatero, a adiar o problema e com o novo Governo, de Rajoy, a perder o controlo da sua resolução. O que podia ter sido contido às cajas pode agora contagiar os maiores bancos (Santander, BBVA e La Caixa não estão dependentes destes cem mil milhões). Pior: pode contagiar a dívida soberana.

O que é diferente da Irlanda é a solução. A Irlanda nacionalizou o prejuízo dos bancos, o que se tornou défice público; em Espanha tenta-se colocar um cordão de segurança à volta da banca, emprestando-lhe cem mil milhões, que serão dívida pública. O objectivo é impedir que o problema da banca se torne um problema do Estado. Mas é claro que estes cem mil milhões são parte de um resgate a Espanha. Inclui um programa de austeridade não escrito mas já em prática. E colocará bancos espanhóis debaixo da supervisão do BCE.

Esta pode ser uma das grandes consequências desta crise espanhola: o salto para a união bancária na Europa. Uma união em que abrir conta em Lisboa, em Madrid ou em Berlim seja igual. Uma união em que o Banco Central Europeu comande a supervisão bancária. O Banco de Espanha sai mal, sai muito mal desta história. Até porque o Governo de Rajoy o desautorizou, ao deslocar a auditoria ao sistema para o Ministério da Economia. 

Os bancos europeus não vão mais ganhar dinheiro como até aqui, vão passar por fusões, extinções, vão reduzir o número de balcões, o número de empregados, o endividamento, os activos, os balanços. Nós sabemos: estamos adiantados nisso em Portugal. 

Um parágrafo para Portugal: o bom aluno tem razões para sorrir. O processo de capitalização está a concluir-se e os bancos chegarão ao Verão com os rácios de capital mais altos da Europa. Falta saber que parte é pública e que parte é privada mas isso são contas para outro editorial. Mais: dos 12 mil milhões disponíveis, estão para já comprometidos um máximo de cinco mil milhões (para o BCP e BPI; admite-se 500 milhões para o Banif). Sobrarão pelo menos seis mil milhões como seguro para eventuais necessidades. Ministério das Finanças e Banco de Portugalnão agiram sempre juntos, mas não agiram ainda mal. 

De Espanha o problema não será financeiro, mas económico: as nossas exportações. O contágio não é a ocidente mas a oriente de Madrid. É para lá dos Pirineus. E dos Alpes. É os maiores bancos espanhóis perderam acesso a financiamento, caso em que cem mil milhões não bastam; é a Espanha não ter taxas de juro acessíveis, altura em que a pressão para a mutualização de dívida na Europa se torna inadiável. Rajoy não foi ontem ver futebol àPolónia porque está despreocupado. Foi porque quer parecer que não está desesperado.

"Parem o jogo da culpa", disse Bob Diamond, presidente do Barclays, há ano e meio. É cedo. Quando dizemos que a banca capturou a política é disto que falamos. De repúblicas de devedores e monarquias de credores. De financeiros que sabem tudo embalarem políticos que não sabem nada. E de uns e outros terem o supino descaramento de acusar aqueles que pagam os seus erros de iliteracia financeira. Sim, aqueles que estoiram os orçamentos futuros, tapados com austeridade e que destapam falências e desemprego, são os que chamam o povo de ignorância financeira. É lindo.

A crise é bancária. Metastizou-se em crise soberana. E ambas são suportadas pelos "europeus". Por nós. Só numa democracia doente é que mentir a instituições europeias, como na Grécia, é mais grave que mentir ao povo, como em Espanha. A banca será ajudada. E nós, que lhes dizemos? Nada. Já dissemos tudo um outro. Já escrevemos tudo o que havia a escrever. Falta sofrer. Como é que se regressa do abismo? "


Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios